quarta-feira, 6 de junho de 2012

Corações desabrigados



Ah, esses coitados sem-teto! Chove granizo, ventos fortes lhes cegam com a areia que teima em acertar os locais mais incômodos, o sol forte resseca seu revestimento. Natureza quase impiedosa. Nessas condições, quando todos os lares parecem ocupados, na sua lotação máxima, tais seres se protegem como podem. 

Alguns criam resistência às intempéries, outros se conformam com abrigos temporários, que lhes tragam proteção e um mínimo de conforto, mesmo que momentâneos. E partem para o próximo quando estes já não suprem as necessidades mínimas. Outros se apertam como podem, aceitando viver apertadinhos junto com outros, dividindo tudo minimamente, na esperança de ganhar um pouco mais de espaço mais adiante. 

Mas a constante mesmo é que eles sobrevivem. Mesmo que pouco alimentados, dos mais diversos sentimentos, ou algumas vezes maltratados. Uns se alimentam de tal forma que a indigestão não perdoa; uma hora gorfam tudo o que colocaram pra dentro. Mas vivem. Sempre dão um jeito. Mesmo que sob uma coberta esfarrapada, num cantinho apertado, para se proteger da chuva.


Mayara S.
Inspirada por Gildean Tiago

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tanta atenção à fala
quando as cordas vocais me amarram.
Deixa-me expressar pelo corpo, leve e livre, como uma transcrição sem palavras da alma, os sentimentos pelos sentidos. Dança solta e baila a vida.

Mayara S.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um contrato de aluguel qualquer.

Senhor inquilino,

O prazo do contrato estabelecido por vossa senhoria já expirou. No entanto, no local ainda se encontram alguns de seus pertences, o que atrapalha o negocio locatário.
Tendo em vista esse impasse, requisita-se uma renovação do contrato ou a desocupação total do imóvel. Desta forma, outros inquilinos mais interessados podem ocupar o lugar. Pensando no bem estar de todos, agradecemos a sua atenção.
Caso a resolução já tenha sido tomada na data do recebimento desta carta, favor desconsiderá-la.

Atenciosamente,

A Direção.

Mayara S.

sexta-feira, 23 de março de 2012

sábado, 10 de março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Vai chover



As gotas caem contra o parabrisas, leves respingos como as lágrimas que não derramei.
O dia nasce, num céu cinza que me traz a calma.
Num frio que me aquece a alma.
E vem a tormenta.
A agua que cai com violência,
limpa à força
e traz a paz.


Mayara S.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Infanto cai
Se fere
se corta
Mamãe beija o dodói
A dor passa
A cicatriz-marca
O tempo a não destrói.

Mayara S.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Mayara S.

Chá da noite

"Para que você possa tomar um chá melhor, é preciso esvaziar a xícara."
Não que fosse de todo ruim. Não era. Proporciona momentaneamente um sabor doce, até embriagante.
Mas depois de um tempo vem aquela sensação amarga que começa no fundo da garganta e se espalha por toda a boca. Escovação, antiséptico - nada resolve. Causa incômodo. Irrita. Mas vícios são vícios. Paciência! Logo mais você enche a xícara novamente... Às vezes quente, mas em sua maioria gelado. E de nada adianta o armário cheio de outros sabores quando o único que salta às vistas e ao paladar é aquele. Esvazia a xícara. Detergente, água sanitária, creolina. Vestígios teimosos! Nada te tira o sabor da mente.


Mayara S.

terça-feira, 6 de março de 2012

Não quero o ópio
se o preço
é não viver intensamente

Mayara S.

Hodierno


Um prédio antigo e boas lembranças
Sentar ao sol com uma brisa leve, 
o som de pássaros e conversas distantes,
enquanto folheia um livro qualquer.

Abraços, há tanto tempo não dados
Ter a saudade já serenada
Repetir beijos, ainda que tão recentes
Rememorar ansiosamente.

Mayara S.

segunda-feira, 5 de março de 2012

désir

O desejo é tanto que em mim não cabe
De ter
De doar
De ser
De tudo. Olhar para o tempo e sentir que o venceu. Que nem um décimo de segundo foi desperdiçado com arrependimentos pelo não feito. 
Acertar, errar, aprender. Viver.
E é nessa pressa que tropeço. É desejo demais. Afobação demais.
Não me julgue mal pelos meus atropelos. É o desejo da vida que me toma.


Mayara S.

Fome de vontade

Se a fome é muita, qualquer coisa serve
Mas a vontade é coisa diferente
A chuva não supre a praia
A amizade não supera o amor
O jeans não supre a saia
Nem cordas de aço, o petit gâteau.

Mayara S.

domingo, 4 de março de 2012

Mayara S.

Se (de)tivesse...

O mau de ter é que a gente cega para o valor. Acha que nunca vai perder. Até que se vai...
- Se eu tivesse feito
- Se tivesse falado
- Mas eu ainda poderia...
A ausência dói. O sentimento de perda corrói. O remorso bagunça. 
Uma taça que se espatifa. 
Colhem-se os pedaços, mas o estrago é irremediável. Não pode mais ser taça. Mas ainda tem a arte. Cacos que se transformam em poesia. E a dor se torna bonita.

Mayara S.